A mulher do espelho II (ou O Reencontro)

Volto ao espelho

Ela continua a me acompanhar

Olha-me profundamente

Reconhece-te? – pergunta

Olho-a nos olhos

Depois seu corpo, suas formas

A textura da pele,

Lábios, boca, sorriso

Cabelos, pescoço e nuca

Realidade plena, límpida, profunda

Reconheço cada conquista

Nesse corpo que é meu

E gosto e admiro e quero!

Espelho, espelho meu

Que bela mulher sou eu!

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Ritual íntimo

E num ritual íntimo,

Esfoliar a pele,

O corpo todo.

Impedir que o passado

(que voltou impiedoso)

Forme uma crosta,

Que impeça a pele de respirar.

 

Que sua volta

Seja apenas transitória

Somente para me lembrar

Que tenho nova chance

Chance de decidir:

Permitir que se fixe à minha pele

Ou

Transformá-lo, definitivamente,

Em passado.

O Outro

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Quem é esse que me olha?

O que vê?

O que busca?

O que deseja?

Por que me olha?

Não me olhe apenas com o seu desejo.

Não busque apenas o que já pensa conhecer.

Não veja apenas com seus olhos carnais.

Talvez se decepcione.

Talvez se surpreenda.

Deixe seu olhar atravessar meu corpo

Para além das aparências.

Não sou apenas o que pareço:

Frágil?  Não conhece a minha coragem.

Delicada? Não conhece minha força.

Doce? Também posso ser ácida.

Submissa? Na verdade, gosto de estar no controle.

Calma, tranquila, serena?

Só eu sei o que me custa transparecer como tal.

Não, não faça elogios sem sentido.

Conheça-me antes.

Não me reduza apenas às suas impressões.

Sou muito mais que isso.

Não pense que o efêmero me agrada.

Quero intensidade.

A mulher do espelho

Igapó - Amazonas

Olha-me profundamente dentro dos olhos.
A única que enxerga minh’alma.
Sabe das alegrias do meu coração.
Conhece as dores do meu viver.

De tempos em tempos
Conta-me histórias e revivências.
Sempre me mostra novos caminhos.
Possibilidades…

Conhecendo-me profundamente,
Confunde-se quando não me (se) reconhece.
Quem é esta do outro lado?
Ilusão ou realidade?

Côncavo ou plano?
Deformação ou verdade?
Espelho, espelho meu,
Diga-me, esta sou eu?

O gesto espontâneo

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Cris Goto

O gesto espontâneo

 O gesto espontâneo

Nasce na alma

Incomodada por uma falta.

Mas falta de quê?

Nem mesmo a alma sabe…

Porém precisa agir, buscar.

Mesmo sem o saber,

Move-se em gesto, espontaneidade.

Ao fazê-lo,

Surpreendentemente é acolhida:

Conforto.

E o que sempre esteve

À espera,

Enfim é encontrado.

O gesto torna-se

Criação.

Dedico este poema à:

Mafalda que me fez revisitar a minha criança interior,

Rian Fontenele que me inspira a extrair do fundo da alma tudo que posso ser.